Tudo estava fora de ordem. Era visível e perceptível. Como não viam? Desde o mais minúsculo ao mais macroscópico, tudo estava fora de ordem. As células estavam mutando e matando seus donos. Os remédios estavam mais fortes e tentavam curar até humor. O trânsito estava como sempre. O trabalho estava chato. A academia estava abandonada. O meio estava em crise. A economia estava normal. O cosmos estava em expansão. O cosmos estava em retração. O homem estava com medo. A guerra estava com tudo. A vida estava uma guerra. O governo estava incrível. A televisão estava em outra dimensão.
E implicaram porque trocara o dezesseis com o dezessete?
Prá que tanta ordem, então?
Escrevo para falar as vozes de mim. Dar-lhes caminho. Aqui elas circulam e os monstros descansam. Eles não me assustam mais.
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
Décimo Sétimo.
E estava cansado. Aquele tinha sido um ano pesado, mas nem por isso ruim. Ao contrário, sentia-se feliz. Tinha feito coisas que sempre quis, outras que não quis e ainda algumas que jamais desejou. Já não sabendo mais distinguir real de realidade ou ficção de fantasia, mergulhado que estava em seus próprios sentimentos, depois de 6 meses de criação, decretou-se em estado temporário de descanso. E não atendeu mais nenhuma ligação no velho celular. E não respondeu um sms sequer. E não acessou o facebook. Tampouco - palavra celeumática - abriu e-mail ou youtube. E não abriu a caixa do correio. E não verificou o saldo na tela do equipamento, mas imprimiu. E não pesou o prato de comida. E não recarregou o bilhete. E não comprou sonho de creme às quartas. E não emagreceu. E não correu. E não leu. E não escreveu mais. Até o décimo sétimo dia, aquele em que alguns acreditam que ele voltará.
sábado, 17 de dezembro de 2011
O Décimo Quinto.
Enquanto a noite estava quente, a rua fervia e seu corpo aguardava. Estava com os olhos vidrados naquele outro corpo. Branco, liso, macio. Os jatos d'água gelados em seu rosto o despertava do transe e da transa. Amaram-se como amantes profissionais, sem preconceito, sigilo total. Ainda sentia o cheiro dela em sua pele, a textura de seus lábios em seu corpo, sua alma em sua pélvis. Ela, satisfez-se e foi. Sem contato. Sem nome. Sem fone. Apenas a presença de seu prazer pairava naquele quarto. Com a toalha branca envolvida na cintura, ouvia vozes entre o barulho dos motores e buzinas da 23. Vestiu-se lentamente. O contato do tecido em seu corpo lhe proporcionava o mesmo prazer que aquelas pele e boca lhe sugeriam minutos atrás. De volta ao banheiro, olhou-se no espelho, lavou o resto de sangue no braço e conferiu as marcas deixadas pela noite. A última noite dela. E apenas mais uma em sua série. O décimo quinto. Quando o allstar verde pisou na calçada veio-lhe a mesma sensação. A noite estava quente. A rua fervia.
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
O Décimo Quarto.
Estava em uma guerra contra si mesmo. Parado na sala ou no quarto tentava decidir. O que fazer com sua ansiedade e sua capacidade de criar um universo imaginário tão crível que tinha condição de carregar centenas consigo em seus devaneios? Entre eles um que lhe possuía cotidianamente, tal qual a fome, era o do retorno da doença. Nem gostava de lembrar do nome. Sentia sintomas tão reais que, se não fossem os ingênuos exames de sangue, dava mesmo para acreditar. Por isso, cada cigarro fumado era como uma chaga em potencial. E se aquele último fora o maldito cigarro, aquele que como Virgílio, poderia conduzi-lo ao inferno, ao seu próprio inferno? Completamente dominado pela mórbida fantasia, decidiu escrever em seu diário, entre letras corridas: Tenho certeza que desta vez eu mesmo causei minha ruína. Não sei mais o que fazer, minha loucura tornou-se real. Não creio mais no mundo que existe. Prefiro o conforto do mundo que criei. Não foi isso que Deus fez? Pois declaro, torno-me meu próprio Deus a partir de hoje. Estou convicto e em pânico. Estou morrendo.
Leu seu grito de desespero dezenas de vezes. Finalmente lá pela décima quarta ou décima quinta leitura percebera que, mais uma vez, seu mundo lhe consumia. A maldita fantasia era tão real que quando tudo parecia crível era justamente quando se revelava a grande farsa. Retomou sua consciência. Havia um pouco de medo, mas agora estava mais consciente. Releu o que escrevera. Assustou-se, como dessa vez tinha ido longe. Levantou-se e foi em direção à janela, não sem antes passar a mão no maço de Marlboro. Acendeu o isqueiro e virando a cabeça para o lado esquerdo tragou com vontade. E fumou quase todo. Enquanto se deleitava com a fumaça que saia, quando pensou consigo próprio que tudo estava bem, não conseguiu evitar que lhe viesse a pergunta: e se o maldito fosse, justamente, aquele?
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
O Décimo Terceiro.
O que para muitos era uma condição, pra ele se tornara uma opção. Manter-se vivo era apenas prolongar as inquietações que o atormantavam desde que se conhecia por gente ou, como disse sua analista, desde que assumira a posição de sujeito de sua vida. A opção em morrer era sua recusa em continuar buscando respostas que provavelmente não existiam. De onde viemos? Para onde vamos? Como se faz, afinal, um crock monsieur? Ao invés de viver uma vida conhecidamente sem graça, preferia o enfrentamento do desconhecido da morte. Mas não queria sofrimentos, por isso nada que envolvesse sangue ou falta de ar fora cogitado. Pilulas, a droga legalizada do século 21. Tinha algumas caixas de antidepressivos e ansiolíticos. E se a dose não matasse? E se virasse um vegetal sem autonomia, inclusive para se matar? Precisava ser criativo, merecia uma morte indolor, digna. Decidiu tomar 12 antidepressivos e um ansiolítico, desejando encontrar no amanhã uma forma mais agradável para morrer. Ou uma única razão para continuar vivo.
sábado, 3 de dezembro de 2011
O Décimo Segundo.
O aniversário do tio Ataíde era o grande evento familiar. Afinal, era o primeiro dos Pereira que estava completando um centenário de vida. Filho de imigrantes portugueses, tio Ataíde não tinha papas nas línguas e já era caduco desde seus noventa e poucos anos.Tinha 5 filhos, 13 netos, 4 bisnetos e nascera, há pouco mais de 3 meses, o primeiro tataraneto, que recebera seu nome em homenagem. A festa fora preparada com todo carinho e pompa que merecia. Parentes do além Tejo confirmaram presença, como também vários tupiniquins de mesmo sangue. Dos seus outros onze irmão, apenas 5 ainda estavam vivos. Arlindo, seu irmão mais novo estava muito doente, mas seus filhos fizeram questão de comparecer. No salão, as mesas estavam decoradas com fotos da vida de Ataíde, desde sua infância em Itajubá, a participação como praça na Segunda Guerra mundial, o seu casamento, de quando recebera o prêmio de melhor funcionário do exército, onde fizera carreira, como também imagens de sua participação no governo militar de 1968. O menu da festa era uma seleção de pratos da cozinha portuguesa e mineira. Havia iguarias preciosas, como doce de ovo. Aliás, comentava-se que a mesa de doces era uma afronta para os velhos diabéticos presentes na festa. Mais de 300 convidados ja estavam no salão quando se projetou o curta metragem que sua bisneta Ágata criara para demonstrar seu carinho ao vovô, como também justificar aos seus pais os 3000,00 reais mensais pagos no curso de cinema da Faap. Todos estavam muito emocionados. Arlindo, seu filho mais velho, ao microfone, era o responsável para homenageá-lo: Pai querido, tê-lo aqui é um prazer que não podemos descrever, o senhor é um exemplo para todos nós. E depois de algumas frases emocionantes, emocionado, passou a palavra para o homenageado. Tio Ataíde, um pouco alheio ao significado de tudo aquilo, mas mantendo a pose como lhe mandavam, pensou no que dizer. Momento especial, o patriarca de cem anos deixaria sua sabedoria para as mais de quatro gerações que ali se encontravam. Silêncio. Tio Ataíde não falava nada. Sua esposa, dez anos mais nova, sempre prestativa e carinhosa, tentou ajudá-lo: Conte para eles como é ter cem anos. Ataíde olha para a mulher com quem vivera mais de 70 anos e para a comoção de todos, fala entre a voz rouca e pouco consciente: A melhor coisa de ser velho é que você dorme, come e caga. Nem sempre assim, nessa ordem.
Depois de alguns segundos de silêncio, alguém entoou o parabéns e o microfone foi desligado.
Tio Ataíde morreu com 102 anos. Nas outras duas comemorações que se seguiram, a família preferiu algo mais intimista. E sem depoimentos.
Depois de alguns segundos de silêncio, alguém entoou o parabéns e o microfone foi desligado.
Tio Ataíde morreu com 102 anos. Nas outras duas comemorações que se seguiram, a família preferiu algo mais intimista. E sem depoimentos.
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
O Décimo Primeiro.
Eram sujos e se orgulhavam disso. Como pequenos burgueses, aquela era sua forma de repudiar os valores imediatistas do consumo desenfreado. Por isso não lavavam o rosto cotidianamente, tampouco escovavam os dentes após cada refeição. Seus cabelos eram mal lavados e cortados um pelo outro. Seus corpos exalavam o cheiro do humano quando despido dos hábitos civilizados. Meu Deus, como podiam deitar e rolar daquele jeito? Ela, maltrapilha, julgava-se descolada. Ele tinha por costume usar a mesma camiseta com bordas esgarçadas dias seguidos.
Um dia encontraram uma garrafa mágica de Johnny Walker, a esfregaram e beberam toda. E não é que um gênio apareceu e lhes concedeu dois pedidos? Um para cada. Ele desejou para si e para ela uma vida mais digna. Roupas novas, corte de cabelo no Soho Perdizes, tênis fashion, banho de espuma refrescante em ofurô genuinamente japonês, relógios descolados Chilli Beans, perfumes Boss. Ela, por sua vez, desejou que tudo voltasse ao normal e, se não fosse abuso, mais uma dose (dupla) do bom João Caminhante. Afinal, nos dias de hoje ser alternativo não é nada fácil e um trago sempre ajuda.
Um dia encontraram uma garrafa mágica de Johnny Walker, a esfregaram e beberam toda. E não é que um gênio apareceu e lhes concedeu dois pedidos? Um para cada. Ele desejou para si e para ela uma vida mais digna. Roupas novas, corte de cabelo no Soho Perdizes, tênis fashion, banho de espuma refrescante em ofurô genuinamente japonês, relógios descolados Chilli Beans, perfumes Boss. Ela, por sua vez, desejou que tudo voltasse ao normal e, se não fosse abuso, mais uma dose (dupla) do bom João Caminhante. Afinal, nos dias de hoje ser alternativo não é nada fácil e um trago sempre ajuda.
terça-feira, 29 de novembro de 2011
O Décimo.
Já se passara dez anos e a história era clássica, do início de sua carreira.
Era uma turma da antiga 6ª. série com 34 crianças, todas querendo estar em qualquer lugar do planeta - incluído aí o estado do Acre- e que pouco se interessavam pelo ciclo da cana de açúcar no Brasil colonial. Mas seu ímpeto de educador- formador-de-cidadãos-críticos-colaborativos-e-plurais o levava a dedicar-se ao máximo, sentindo-se como o bom pastor que deixa o rebanho mais comportado em busca das ovelhas extraviadas. Insistindo, começou a contar o dia a dia naquela época, como eram as vestimentas, o namoro, como as casas eram divididas, do que as crianças brincavam, o que comiam, quando, não mais agüentando de curiosidade, o pequeno ser à sua frente, com o dedo em riste, questiona: Eles comiam rabanete? Apesar do estranhamento, ele ainda parou para pensar... Não tenho certeza, Pedro. Mais um bimestre e o ciclo do ouro era a bola da vez. Sempre imbuído dos melhores sentimentos pedagógicos, teceu uma comparação com o trabalho das minas coloniais e as relações contemporâneas, dando uma pincelada inicial em Marx. E novamente o dedo de Pedro: Eles comiam rabanete? Pisoteando as obras de Vigostsky e Piaget, perdeu a paciência e questionou: Qual o seu problema com o rabanete? Você adora rabanete, odeia o rabanete, o que foi? E Pedro, tranquilamente: Não sei, nunca comi.
Pensou que talvez estivesse ficando sem paciência com crianças.
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
O Nono.
Eles falavam pouco sobre si, mas sabiam muito um do outro. Eram, em partes, um mesmo ser. O mais velho estava sempre preocupado com o bem estar do mais novo. Esse, por sua vez, sentia que poderia agradá-lo. E nessa relação eles traçaram suas vidas. Um dia, decidiram ir a feira juntos. Caminhavam em silêncio, um ao lado do outro, cada qual tentando adivinhar o que o outro estava pensando. Ao chegarem a feira, a preocupação do primeiro era comprar os melhores alimentos, os mais saborosos para todos e, claro, como se fosse necessário mais agrado que sua presença, queria saber o que o outro desejava. O menor também queria atender a demanda do mais velho, escolhendo as melhores maçãs e bananas. Ao final, as duas sacolas estavam cheias de frutas, verduras e alimentos. E eles, repletos um do outro. E tomaram o rumo para casa. Em silêncio. O mais velho satisfeito com a presença do pequeno e certo de que o melhor havia sido feito. O mais novo sentindo-se protegido e amado. Anos depois, em sua despedida final, o silêncio novamente se fez presente. Como também o mesmo sentimento de amor e cuidado com o outro. Nunca mais foram a feira, a missa ou qualquer outro lugar juntos. Restou ao mais novo as memórias do caminho e um par de sacolas vazias, ávidas para serem preenchidas com as maçãs e bananas que, agora, tornavam-se as melhores lembranças de sua infância.
domingo, 27 de novembro de 2011
O Oitavo.
E nos obrigaram a pensar que a economia é o motor da vida, que o país é bom prá todos, que o mundo é sustentável, que o papel é reciclável, que o pelling tem efeito, que o botox é bem feito, que o corpo é sarado, que a mente é governável, que o sexo é virtual, que o amor platônico pode ser real, que a pobreza é natural, que o governo é genial. E nos obrigaram a ter medo do que sentimos, a desconfiar de quem somos, de onde viemos e para onde vamos. E nos disseram que tudo passa, que tudo muda, que tudo está bem, que a fama é poder e que poder mesmo ninguém tem. E nos falam que o americano tá infeliz, que bom mesmo é ser brasileiro, adulto, bicha, maconheiro. Que tudo vai passar, com calma, tudo vai passar.
E por que, diabos, o vazio não quer calar?
Para Andressa B.
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
O Sétimo.
Aquele tinha que ser perfeito. Afinal Deus criara um mundo tecnicamente em sete dias, dando-se o direito a uma folga no fim do trabalho. Sete bilhões é o número de seres humanos no planeta. O espectro possui sete cores. Sete são os dias da semana, as notas musicais, os mares e os continentes. Sete as maravilhas do mundo antigo e moderno. E aquele era seu sétimo conto. Até então estava indo bem, inspirando-se nos detalhes cotidianos: um por de sol estonteante como os de Berlim, uma piada no trabalho, um pequeno passarinho que pousara em sua janela. Tudo que pudesse lhe servir de inspiração era devidamente anotado em seu caderninho, como lhe ensinara Glauber. Todavia, como numa maldição grega, nada mais lhe vinha à mente. Nem mesmo as memórias da infância eram suficientemente boas para aquele sétimo conto. Pensou nos livros que comprou e nunca leu, nos discos que mais lhe marcaram, nos brinquedos que tivera. Nada. Computador ligado, esquentando, zunindo. Começava uma linha para antes de seu final deletá-la. O branco papel virtual se oferecia como um adolescente obcecado em perder a virgindade. Nada.
Falou com o analista, fumou um cigarro, dois, três. Nada. Ligou para amigos, pediu opiniões. De nada adiantava pois o nada era tudo naquele momento. Seu gênio criativo não passara de uma simples aventura com palavras. Preparou uma dose on the rocks, outro cigarro. Disposto a tudo para manter-se entre os sete blogs mais visitados pelos sete melhores amigos que uma pessoa pode ter, na companhia de seu gato cujas outras seis vidas pareciam todas em crédito, plagiou. Ninguém perceberia. Contos checos são muito pouco lidos ou conhecidos.
Comentários elogiosos logo apareceram. O primeiro destacava sua perspicácia com os temas envolvidos, resgatando um tempo perdido graças às incidências da vida pós-moderna. O segundo comentava sua estilística, comparando-o a Machado. Os dois seguintes elogiavam sua capacidade em traduzir em palavras os sentimentos humanos mais profundos, como se as palavras pudessem ser outras coisas. O quinto comentário, seu preferido, grafava um simples “adorei”. Estava inebriado de si como Narciso. O sexto post afirmava como suas palavras tocavam a alma. O sétimo era um link que, quando clicado, remetia a um excelente conto do mais importante escritor checo da contemporaneidade.
Os leitores acreditam até hoje que o pulo do sexto para o oitavo simboliza sua crítica à perfeição. Nem desconfiam se tratar de sua maior confissão, sua rendição ao imperfeito.
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
O sexto.
Hiperativo. Depressivo. Bipolar. Transtornado por déficit de atenção e controle. Onanista excessivo. Imaturo. Pré-maturo. Infatil. Portador de síndrome de Peter Pan. Compulsivo. Pais separados. Pais adotivos. Narcisista. Alienado. Consumista. Despretensioso. Sem ambição. Mimado. Fumante. Maconheiro. Bêbado. Irresponsável. Na tua idade eu... Ritalina. Lexotan. Bup. Ziban. Adrenalina. Anti-depressivo. Anti-convulsão. Remédio para dormir. 5.475 dias de vida. 15 anos. Condenado a ser tudo, menos si próprio.
O Quinto.
Eram uma quadrilha.
- Quem tá com o dinheiro mesmo não deixa aqui nessa merda, tá com o grosso lá fora. Mesmo assim é bom avisar, liga prá eles e diz pra tirarem tudo o que puderem agora. Se perguntarem muito diz que é um aviso. É o máximo que posso fazer. É melhor ter essa gente do nosso lado do que contra nós. Do resto pega tudo.
- Quando?
- Assim que der. Dia 12 é bom... não, não, melhor, pensa mais uns dias, deixa pra março, só prá se acostumarem com a gente.
-E como vai ser?
- Ninguém tira mais nada, bloqueia tudo. Ninguém vai entender.
- E se rolar pânico, se não hora eles não derem conta?
- Já ligou prá eles? Avisou? A gente vai detonar! Fodam-se todos.
- Fernando, já estão todos aqui.
- E se alguem abrir o bico ou sair fora, vai ver o demônio antes do tempo. Se me deixarem só eu fodo! Fodo todo mundo.
- Quem tá com o dinheiro mesmo não deixa aqui nessa merda, tá com o grosso lá fora. Mesmo assim é bom avisar, liga prá eles e diz pra tirarem tudo o que puderem agora. Se perguntarem muito diz que é um aviso. É o máximo que posso fazer. É melhor ter essa gente do nosso lado do que contra nós. Do resto pega tudo.
- Quando?
- Assim que der. Dia 12 é bom... não, não, melhor, pensa mais uns dias, deixa pra março, só prá se acostumarem com a gente.
-E como vai ser?
- Ninguém tira mais nada, bloqueia tudo. Ninguém vai entender.
- E se rolar pânico, se não hora eles não derem conta?
- Já ligou prá eles? Avisou? A gente vai detonar! Fodam-se todos.
- Fernando, já estão todos aqui.
- E se alguem abrir o bico ou sair fora, vai ver o demônio antes do tempo. Se me deixarem só eu fodo! Fodo todo mundo.
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
O quarto.
Suas certezas estavam todas em xeque. O interrogatório, contínuo. A pressão intensa. Mas havia também a lucidez. E quando havia, aliviava a histeria. O problema era o seguinte: o preço de seu gozo era o tormento de sua alma. O eterno retorno, a ideia fixa é a lei da histeria, ou da história, de modo que seu maior vilão era si próprio. Punhos. No quarto, o espelho quebrado que revelava toda a sua loucura era, ao mesmo tempo, a prova mais real de sua lucidez.
domingo, 20 de novembro de 2011
O Terceiro.
Sábado à noite festa em Ipanema naqueles apartamentos antigos, com uma janela que tomava meia quadra na Farme de Amoedo. Mas não abria, estava emperrada há anos. Eles eram uma patota daquele tipo que reúne sempre as mesmas pessoas para discutir as mesmas coisas, ouvindo as mesmas músicas. Típica turma de amigos de uma cidade cosmopolita ou de um fim de mundo qualquer. Entre um hit do Abba e outro do Eurytmics, eis que chega o cidadão. Bem vestido, bonito, muito comunicativo. Apresentou-se como ator. Fazia teatro alternativo-interpretativo desde sempre e buscava seu momento no Rio. Estava tentando formar um grupo independente. Seu lado social se amplificava na mesma proporção da vitrola com o vinil do The B’52s. Como em toda turma, o que faz às vezes do intelectual perguntou-lhe que tipo de dramaturgia preferia: Gosto muito da comédia, mas um ator se revela mesmo é na tragédia. Alguns drinks e começou a se sentir em casa, com a sua patota, a que nunca teve. E começou a fazer imitações dos presentes. Voz mais afeminada para a bichinha, língua presa para o professor, olhos vesgos para o daltônico e imitações de flátulos para a gordinha. Os risos iniciais foram dando lugar ao desconforto. Como num paradoxo temporal que somente a física quântica consegue descrever, a medida que a patota emudecia, mais ele falava. E gargalhava. E imitava. E gargalhava mais. Os olhares mudos que se cruzaram na sala pareciam partilhar das mesmas intenções. Primeiro levantou-se o professor. Depois o intelectual e a gordinha. Quando, enfim, todos estavam em pé, ele se calou.
A polícia trabalha com a hipótese de suicídio ou acidente. Defenestrado não era o caso, a janela mal abria. Os presentes à festa afirmavam que ele era um grande amigo e excelente ator. Aliás, de comédia, o melhor!
sábado, 19 de novembro de 2011
O Segundo.
Ela sempre sonhou com a riqueza. Criada para ser princesa, casou-se, claro, com um engodo. Bonachão, despreocupado, sem ambições. Um dia, depois de muito insistir, ele aceitara um passeio no shopping para ver um presente para ela. O que mais a irritava não era o fato dele não comprar os presentes que desejava, mas simplesmente o de nem permitir que ela cogitasse a hipótese de tê-los: Esse aí, esqueça, não tenho dinheiro. Para se vingar, ela entrou na joalheria mais cara, apenas para sentir a sensação de comprar um brilhante. Ele, nervoso, ao lado, repetia seu mantra: não tenho dinheiro. A vendedora, aparentemente melhor vestida que ela, se aproxima, oferece acentos confortáveis em poltronas de chenille bordô e um espumante francês para degustação. E entre dentes, já suando, ele repetia: não tenho dinheiro. Ela agia como se fosse a princesa de Mônaco, provando braceletes, colares e, entre um espumante e outro, a vendedora dera o golpe de misericórdia: um relógio Audemars Piguet, de diamantes e desing inovador. Já irritado e não suportando mais a cena, ele revida: Fique a vontade meu amor, te espero em nosso Jaguar, na recepção do valet. E saiu. A vendedora insistia: esse é um dos relógios mais conceituados do mundo, seus diamantes são africanos e os rubis da melhor qualidade. Desconfortável, mas mantendo a pose, esperava a deixa para fugir da loja, matar o marido e retomar sua vida. Entre os vários atributos do nobre objeto, a vendedora anuncia, triunfante: esse relógio ressiste até 100 metros abaixo d'água. Com a ponta dos dedos e movimentos lentos, ela retira o relógio do pulso e o entrega à vendedora: Detesto nadar, deixa para uma outra oportunidade.
Divorciaram-se dois meses depois.
Divorciaram-se dois meses depois.
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
O Primeiro.
No começo era para ser um romance.
Tinha bastante material levantado. Sabia tudo sobre o Brasil da época e entendia um pouco do que acontecia no resto do mundo. O mote da história também era bom. Claro que, ao final, ficaria notório tratar-se de uma auto-biografia-inconsciente, algo bastante foucaultiano, com certeza.
E começou a ficar bom. As imagens apareciam e ele as descrevia em uma sintaxe cujos efeitos até mesmo o leitor menos atento ou neófito ficava surpreso.
O mote era ótimo: jovem estudante brasileiro, filho de família tradicional interiorana, vai viver em Paris. O ano é de 1887. Na grande cidade tudo é encantador ao mesmo tempo que as dimensões da vida naquele lugar o assustam. Experimenta coisas novas. Algumas boas, outras nem tanto, porém, todas completamente desvirginadas em terras francesas. Dessas a maior era o caso com o professor. E não era apenas sedução intelectual, era carnal também. Dava para sentir no ar que eles mal conseguiam disfarçar seus desejos. Depois de umas setenta páginas descrevendo a felicidade do amor livre e realizado ou os infortúnios do desejo escondido e ameaçado, podia-se prever o final: eles são descobertos, o professor nega tudo e ele acaba em um beco sem saída. No fim mesmo, era prá ter morrido. Mas parou na página 79. Nunca mais escreveu uma linha.
Tinha bastante material levantado. Sabia tudo sobre o Brasil da época e entendia um pouco do que acontecia no resto do mundo. O mote da história também era bom. Claro que, ao final, ficaria notório tratar-se de uma auto-biografia-inconsciente, algo bastante foucaultiano, com certeza.
E começou a ficar bom. As imagens apareciam e ele as descrevia em uma sintaxe cujos efeitos até mesmo o leitor menos atento ou neófito ficava surpreso.
O mote era ótimo: jovem estudante brasileiro, filho de família tradicional interiorana, vai viver em Paris. O ano é de 1887. Na grande cidade tudo é encantador ao mesmo tempo que as dimensões da vida naquele lugar o assustam. Experimenta coisas novas. Algumas boas, outras nem tanto, porém, todas completamente desvirginadas em terras francesas. Dessas a maior era o caso com o professor. E não era apenas sedução intelectual, era carnal também. Dava para sentir no ar que eles mal conseguiam disfarçar seus desejos. Depois de umas setenta páginas descrevendo a felicidade do amor livre e realizado ou os infortúnios do desejo escondido e ameaçado, podia-se prever o final: eles são descobertos, o professor nega tudo e ele acaba em um beco sem saída. No fim mesmo, era prá ter morrido. Mas parou na página 79. Nunca mais escreveu uma linha.
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Reescrita
Recentemente percebi que palavras com "re" dão trabalho. Revendo-as parece que as letras se encaixam perfeitamente, como se foss...
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