domingo, 20 de novembro de 2011

O Terceiro.

Sábado à noite festa em Ipanema naqueles apartamentos antigos, com uma janela que tomava meia quadra na Farme de Amoedo. Mas não abria, estava emperrada há anos. Eles eram uma patota daquele tipo que reúne sempre as mesmas pessoas para discutir as mesmas coisas, ouvindo as mesmas músicas. Típica turma de amigos de uma cidade cosmopolita ou de um fim de mundo qualquer.  Entre um hit do Abba e outro do Eurytmics, eis que chega o cidadão. Bem vestido, bonito, muito comunicativo. Apresentou-se como ator. Fazia teatro alternativo-interpretativo desde sempre e buscava seu momento no Rio. Estava tentando formar um grupo independente. Seu lado social se amplificava na mesma proporção da vitrola com o vinil do The B’52s. Como em toda turma, o que faz às vezes do intelectual perguntou-lhe que tipo de dramaturgia preferia: Gosto muito da comédia, mas um ator se revela mesmo é na tragédia.  Alguns drinks e começou a se sentir em casa, com a sua patota, a que nunca teve. E começou a fazer imitações dos presentes. Voz mais afeminada para a bichinha, língua presa para o professor, olhos vesgos para o daltônico e imitações de flátulos para a gordinha. Os risos iniciais foram dando lugar ao desconforto.  Como num paradoxo temporal que somente a física quântica consegue descrever, a medida que a patota emudecia, mais ele falava. E gargalhava. E imitava. E gargalhava mais. Os olhares mudos que se cruzaram na sala pareciam partilhar das mesmas intenções. Primeiro levantou-se o professor. Depois o intelectual e a gordinha. Quando, enfim, todos estavam em pé, ele se calou.
A polícia trabalha com a hipótese de suicídio ou acidente. Defenestrado não era o caso, a janela mal abria. Os presentes à festa afirmavam que ele  era um grande amigo e excelente ator. Aliás, de comédia, o melhor!

Um comentário:

Reescrita

Recentemente percebi que palavras com "re" dão trabalho. Revendo-as  parece que as letras se encaixam perfeitamente, como se foss...