quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O Décimo Sexto.

Tudo estava fora de ordem. Era visível e perceptível. Como não viam? Desde o mais minúsculo ao mais macroscópico,  tudo estava fora de ordem. As células estavam mutando e matando seus donos. Os remédios estavam mais fortes e tentavam curar até humor. O trânsito estava como sempre. O trabalho estava chato. A academia estava abandonada. O meio estava em crise. A economia estava normal. O cosmos estava em expansão. O cosmos estava em retração. O homem estava com medo. A guerra estava com tudo. A vida estava uma guerra. O governo estava incrível. A televisão estava em outra dimensão.
E implicaram porque trocara o dezesseis com o dezessete?
Prá que tanta ordem, então?

Décimo Sétimo.

E estava cansado. Aquele tinha sido um ano pesado, mas nem por isso ruim. Ao contrário, sentia-se feliz. Tinha feito coisas que sempre quis, outras que não quis e ainda algumas que jamais desejou. Já não sabendo mais distinguir real de realidade ou ficção de fantasia, mergulhado que estava em seus próprios sentimentos, depois de 6 meses de criação, decretou-se em estado temporário de descanso. E não atendeu mais nenhuma ligação no velho celular. E não respondeu um sms sequer. E não acessou o facebook. Tampouco - palavra celeumática - abriu e-mail ou youtube. E não abriu a caixa do correio. E não verificou o saldo na tela do equipamento, mas imprimiu. E não pesou o prato de comida. E não recarregou o bilhete. E não comprou  sonho de creme às quartas. E não emagreceu. E não correu. E não leu. E não escreveu mais. Até o décimo sétimo dia, aquele em que alguns acreditam que ele voltará.

sábado, 17 de dezembro de 2011

O Décimo Quinto.

Enquanto a noite estava quente, a rua fervia e seu corpo aguardava. Estava com os olhos vidrados naquele outro corpo. Branco, liso, macio. Os jatos d'água gelados em seu rosto o despertava do transe e da transa. Amaram-se como amantes profissionais, sem preconceito, sigilo total. Ainda sentia o cheiro dela em sua pele, a textura de seus lábios em seu corpo, sua alma em sua pélvis. Ela, satisfez-se e foi. Sem contato. Sem nome. Sem fone. Apenas a presença de seu prazer pairava naquele quarto. Com a toalha branca envolvida na cintura,  ouvia vozes entre o barulho dos motores e buzinas da 23. Vestiu-se lentamente. O contato do tecido em seu corpo lhe proporcionava o mesmo prazer que aquelas pele e boca lhe sugeriam minutos atrás. De volta ao banheiro, olhou-se no espelho, lavou o resto de sangue no braço e conferiu as marcas deixadas pela noite. A última noite dela. E apenas mais uma em sua série. O décimo quinto. Quando o allstar verde pisou na calçada veio-lhe a mesma sensação. A noite estava quente. A rua fervia.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

O Décimo Quarto.

Estava em uma guerra contra si mesmo. Parado na sala ou no quarto tentava decidir. O que fazer com sua ansiedade e sua capacidade de criar um universo imaginário tão crível que tinha condição de carregar centenas consigo em seus devaneios? Entre eles um que lhe possuía cotidianamente, tal qual a fome, era o do retorno da doença. Nem gostava de lembrar do nome. Sentia sintomas tão reais que, se não fossem os ingênuos exames de sangue, dava mesmo para acreditar. Por isso, cada cigarro fumado era como uma chaga em potencial. E se aquele último fora o maldito cigarro, aquele  que como Virgílio, poderia conduzi-lo ao inferno, ao seu próprio inferno? Completamente dominado pela mórbida fantasia, decidiu escrever em seu diário, entre letras corridas: Tenho certeza que desta vez eu mesmo causei minha ruína. Não sei mais o que fazer, minha loucura tornou-se real. Não creio mais no mundo que existe. Prefiro o conforto do mundo que criei. Não foi isso que Deus fez? Pois declaro, torno-me meu próprio Deus a partir de hoje. Estou convicto e em pânico. Estou morrendo.
Leu seu grito de desespero dezenas de vezes. Finalmente lá pela décima quarta ou décima quinta leitura percebera que, mais uma vez, seu mundo lhe consumia. A maldita fantasia era tão real que quando tudo parecia crível era justamente quando se revelava a grande farsa. Retomou sua consciência. Havia um pouco de medo, mas agora estava mais consciente. Releu o que escrevera. Assustou-se, como dessa vez tinha ido longe. Levantou-se e foi em direção à janela, não sem antes passar  a mão no maço de Marlboro.  Acendeu o isqueiro e virando a cabeça para o lado esquerdo tragou com vontade. E fumou quase todo. Enquanto se deleitava com a fumaça que saia, quando pensou consigo próprio que tudo estava bem, não conseguiu evitar que lhe viesse a pergunta: e se o maldito fosse, justamente, aquele? 

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

O Décimo Terceiro.

O que para muitos era uma condição, pra ele se tornara uma opção. Manter-se vivo era apenas prolongar as inquietações que o atormantavam desde que se conhecia por gente ou, como disse sua analista, desde que assumira a posição de sujeito de sua vida. A opção em morrer era sua recusa em continuar buscando respostas que provavelmente não existiam. De onde viemos? Para onde vamos? Como se faz, afinal, um crock monsieur? Ao invés de viver uma vida conhecidamente sem graça, preferia o enfrentamento do desconhecido da morte. Mas não queria sofrimentos, por isso nada que envolvesse sangue ou falta de ar fora cogitado. Pilulas, a droga legalizada do século 21. Tinha algumas caixas de antidepressivos e ansiolíticos. E se a dose não matasse? E se virasse um vegetal sem autonomia, inclusive para se matar? Precisava ser criativo, merecia uma morte indolor, digna. Decidiu tomar 12  antidepressivos e um ansiolítico, desejando encontrar no amanhã uma forma mais agradável para morrer. Ou uma única razão para continuar vivo.

sábado, 3 de dezembro de 2011

O Décimo Segundo.

O aniversário do tio Ataíde era o grande evento familiar. Afinal, era o primeiro dos Pereira que estava completando um centenário de vida. Filho de imigrantes portugueses, tio Ataíde não tinha papas nas línguas e já  era caduco  desde seus noventa e poucos anos.Tinha 5 filhos, 13 netos, 4 bisnetos e nascera, há pouco mais de 3 meses, o primeiro tataraneto, que recebera seu nome em homenagem. A festa fora preparada com todo carinho e pompa que merecia. Parentes do além Tejo confirmaram presença, como também vários tupiniquins de mesmo sangue. Dos seus outros onze irmão, apenas 5 ainda estavam vivos. Arlindo, seu irmão mais novo estava muito doente, mas seus filhos fizeram questão de comparecer. No salão, as mesas estavam decoradas com fotos da vida de Ataíde, desde sua infância em Itajubá, a participação como praça na Segunda Guerra mundial,  o seu casamento, de quando recebera o prêmio de melhor funcionário do exército, onde fizera carreira, como também imagens de sua participação no governo militar de 1968. O menu da festa era uma seleção de pratos da cozinha portuguesa e mineira. Havia iguarias preciosas, como doce de ovo. Aliás, comentava-se que a mesa de doces era uma afronta para os velhos diabéticos presentes na festa. Mais de 300 convidados ja estavam no salão quando se projetou o curta metragem que sua bisneta Ágata criara para demonstrar seu carinho ao vovô, como também justificar aos seus pais os 3000,00 reais mensais pagos no curso de cinema da Faap. Todos estavam muito emocionados. Arlindo, seu filho mais velho, ao microfone, era o responsável para homenageá-lo: Pai querido, tê-lo aqui é um prazer que não podemos descrever, o senhor é um exemplo para todos nós. E depois de algumas frases emocionantes, emocionado, passou a palavra para o homenageado. Tio Ataíde, um pouco alheio ao significado de tudo aquilo, mas mantendo a pose como lhe mandavam, pensou no que dizer. Momento especial, o patriarca de cem anos deixaria sua sabedoria para as mais de quatro gerações que ali se encontravam. Silêncio. Tio Ataíde não falava nada. Sua esposa, dez anos mais nova, sempre prestativa e carinhosa, tentou ajudá-lo: Conte para eles como é ter cem anos. Ataíde olha para a mulher com quem vivera mais de 70 anos e para a comoção de todos, fala entre a voz rouca e pouco consciente:  A melhor coisa de ser velho é que você dorme, come e caga. Nem sempre assim, nessa ordem.
Depois de alguns segundos de silêncio, alguém entoou o parabéns e o microfone foi desligado.
Tio Ataíde morreu com 102 anos. Nas outras duas comemorações que se seguiram, a família preferiu algo mais intimista. E sem depoimentos.

Reescrita

Recentemente percebi que palavras com "re" dão trabalho. Revendo-as  parece que as letras se encaixam perfeitamente, como se foss...