Estava em uma guerra contra si mesmo. Parado na sala ou no quarto tentava decidir. O que fazer com sua ansiedade e sua capacidade de criar um universo imaginário tão crível que tinha condição de carregar centenas consigo em seus devaneios? Entre eles um que lhe possuía cotidianamente, tal qual a fome, era o do retorno da doença. Nem gostava de lembrar do nome. Sentia sintomas tão reais que, se não fossem os ingênuos exames de sangue, dava mesmo para acreditar. Por isso, cada cigarro fumado era como uma chaga em potencial. E se aquele último fora o maldito cigarro, aquele que como Virgílio, poderia conduzi-lo ao inferno, ao seu próprio inferno? Completamente dominado pela mórbida fantasia, decidiu escrever em seu diário, entre letras corridas: Tenho certeza que desta vez eu mesmo causei minha ruína. Não sei mais o que fazer, minha loucura tornou-se real. Não creio mais no mundo que existe. Prefiro o conforto do mundo que criei. Não foi isso que Deus fez? Pois declaro, torno-me meu próprio Deus a partir de hoje. Estou convicto e em pânico. Estou morrendo.
Leu seu grito de desespero dezenas de vezes. Finalmente lá pela décima quarta ou décima quinta leitura percebera que, mais uma vez, seu mundo lhe consumia. A maldita fantasia era tão real que quando tudo parecia crível era justamente quando se revelava a grande farsa. Retomou sua consciência. Havia um pouco de medo, mas agora estava mais consciente. Releu o que escrevera. Assustou-se, como dessa vez tinha ido longe. Levantou-se e foi em direção à janela, não sem antes passar a mão no maço de Marlboro. Acendeu o isqueiro e virando a cabeça para o lado esquerdo tragou com vontade. E fumou quase todo. Enquanto se deleitava com a fumaça que saia, quando pensou consigo próprio que tudo estava bem, não conseguiu evitar que lhe viesse a pergunta: e se o maldito fosse, justamente, aquele?
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