No começo era para ser um romance.
Tinha bastante material levantado. Sabia tudo sobre o Brasil da época e entendia um pouco do que acontecia no resto do mundo. O mote da história também era bom. Claro que, ao final, ficaria notório tratar-se de uma auto-biografia-inconsciente, algo bastante foucaultiano, com certeza.
E começou a ficar bom. As imagens apareciam e ele as descrevia em uma sintaxe cujos efeitos até mesmo o leitor menos atento ou neófito ficava surpreso.
O mote era ótimo: jovem estudante brasileiro, filho de família tradicional interiorana, vai viver em Paris. O ano é de 1887. Na grande cidade tudo é encantador ao mesmo tempo que as dimensões da vida naquele lugar o assustam. Experimenta coisas novas. Algumas boas, outras nem tanto, porém, todas completamente desvirginadas em terras francesas. Dessas a maior era o caso com o professor. E não era apenas sedução intelectual, era carnal também. Dava para sentir no ar que eles mal conseguiam disfarçar seus desejos. Depois de umas setenta páginas descrevendo a felicidade do amor livre e realizado ou os infortúnios do desejo escondido e ameaçado, podia-se prever o final: eles são descobertos, o professor nega tudo e ele acaba em um beco sem saída. No fim mesmo, era prá ter morrido. Mas parou na página 79. Nunca mais escreveu uma linha.
Escrevo para falar as vozes de mim. Dar-lhes caminho. Aqui elas circulam e os monstros descansam. Eles não me assustam mais.
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Trovs! Você escreve muito bem: uma fina ironia - à la Machado de Assis - permeia suas narrativas que são, ao mesmo tempo, fantásticas e realistas. Os esteriótipos que você coloca como personagens em suas pequenas histórias nos fazem pensar, refletir sobre o mundo - muitas vezes sujo e assustador - que nos cerca! Beijo grande. E continue a escrever! Fabi :)
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