sexta-feira, 18 de novembro de 2011

O Primeiro.

No começo era para ser um romance.
Tinha bastante material levantado. Sabia tudo sobre o Brasil da época e entendia um pouco do que acontecia no resto do mundo. O mote da história também era bom. Claro que, ao final, ficaria notório tratar-se de uma auto-biografia-inconsciente, algo bastante foucaultiano, com certeza.
E começou a ficar bom. As imagens apareciam e ele as descrevia em uma sintaxe cujos efeitos até mesmo o leitor menos atento ou neófito ficava surpreso.
O mote era ótimo: jovem estudante brasileiro, filho de família tradicional interiorana, vai viver em Paris. O ano é de 1887. Na grande cidade tudo é encantador ao mesmo tempo que  as dimensões da vida naquele lugar o assustam. Experimenta coisas novas. Algumas boas, outras nem tanto, porém, todas completamente desvirginadas em terras francesas. Dessas a maior era o caso com o professor. E não era apenas sedução intelectual,  era carnal também. Dava para sentir no ar que eles mal conseguiam disfarçar seus desejos. Depois de umas setenta páginas descrevendo a felicidade do amor livre e realizado ou os infortúnios do desejo escondido e ameaçado, podia-se prever o final: eles são descobertos, o professor nega tudo e ele acaba em um beco sem saída. No fim mesmo, era prá ter morrido. Mas parou na página 79. Nunca mais escreveu uma linha.

Um comentário:

  1. Trovs! Você escreve muito bem: uma fina ironia - à la Machado de Assis - permeia suas narrativas que são, ao mesmo tempo, fantásticas e realistas. Os esteriótipos que você coloca como personagens em suas pequenas histórias nos fazem pensar, refletir sobre o mundo - muitas vezes sujo e assustador - que nos cerca! Beijo grande. E continue a escrever! Fabi :)

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