Ela sempre sonhou com a riqueza. Criada para ser princesa, casou-se, claro, com um engodo. Bonachão, despreocupado, sem ambições. Um dia, depois de muito insistir, ele aceitara um passeio no shopping para ver um presente para ela. O que mais a irritava não era o fato dele não comprar os presentes que desejava, mas simplesmente o de nem permitir que ela cogitasse a hipótese de tê-los: Esse aí, esqueça, não tenho dinheiro. Para se vingar, ela entrou na joalheria mais cara, apenas para sentir a sensação de comprar um brilhante. Ele, nervoso, ao lado, repetia seu mantra: não tenho dinheiro. A vendedora, aparentemente melhor vestida que ela, se aproxima, oferece acentos confortáveis em poltronas de chenille bordô e um espumante francês para degustação. E entre dentes, já suando, ele repetia: não tenho dinheiro. Ela agia como se fosse a princesa de Mônaco, provando braceletes, colares e, entre um espumante e outro, a vendedora dera o golpe de misericórdia: um relógio Audemars Piguet, de diamantes e desing inovador. Já irritado e não suportando mais a cena, ele revida: Fique a vontade meu amor, te espero em nosso Jaguar, na recepção do valet. E saiu. A vendedora insistia: esse é um dos relógios mais conceituados do mundo, seus diamantes são africanos e os rubis da melhor qualidade. Desconfortável, mas mantendo a pose, esperava a deixa para fugir da loja, matar o marido e retomar sua vida. Entre os vários atributos do nobre objeto, a vendedora anuncia, triunfante: esse relógio ressiste até 100 metros abaixo d'água. Com a ponta dos dedos e movimentos lentos, ela retira o relógio do pulso e o entrega à vendedora: Detesto nadar, deixa para uma outra oportunidade.
Divorciaram-se dois meses depois.
Escrevo para falar as vozes de mim. Dar-lhes caminho. Aqui elas circulam e os monstros descansam. Eles não me assustam mais.
sábado, 19 de novembro de 2011
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