Aquele tinha que ser perfeito. Afinal Deus criara um mundo tecnicamente em sete dias, dando-se o direito a uma folga no fim do trabalho. Sete bilhões é o número de seres humanos no planeta. O espectro possui sete cores. Sete são os dias da semana, as notas musicais, os mares e os continentes. Sete as maravilhas do mundo antigo e moderno. E aquele era seu sétimo conto. Até então estava indo bem, inspirando-se nos detalhes cotidianos: um por de sol estonteante como os de Berlim, uma piada no trabalho, um pequeno passarinho que pousara em sua janela. Tudo que pudesse lhe servir de inspiração era devidamente anotado em seu caderninho, como lhe ensinara Glauber. Todavia, como numa maldição grega, nada mais lhe vinha à mente. Nem mesmo as memórias da infância eram suficientemente boas para aquele sétimo conto. Pensou nos livros que comprou e nunca leu, nos discos que mais lhe marcaram, nos brinquedos que tivera. Nada. Computador ligado, esquentando, zunindo. Começava uma linha para antes de seu final deletá-la. O branco papel virtual se oferecia como um adolescente obcecado em perder a virgindade. Nada.
Falou com o analista, fumou um cigarro, dois, três. Nada. Ligou para amigos, pediu opiniões. De nada adiantava pois o nada era tudo naquele momento. Seu gênio criativo não passara de uma simples aventura com palavras. Preparou uma dose on the rocks, outro cigarro. Disposto a tudo para manter-se entre os sete blogs mais visitados pelos sete melhores amigos que uma pessoa pode ter, na companhia de seu gato cujas outras seis vidas pareciam todas em crédito, plagiou. Ninguém perceberia. Contos checos são muito pouco lidos ou conhecidos.
Comentários elogiosos logo apareceram. O primeiro destacava sua perspicácia com os temas envolvidos, resgatando um tempo perdido graças às incidências da vida pós-moderna. O segundo comentava sua estilística, comparando-o a Machado. Os dois seguintes elogiavam sua capacidade em traduzir em palavras os sentimentos humanos mais profundos, como se as palavras pudessem ser outras coisas. O quinto comentário, seu preferido, grafava um simples “adorei”. Estava inebriado de si como Narciso. O sexto post afirmava como suas palavras tocavam a alma. O sétimo era um link que, quando clicado, remetia a um excelente conto do mais importante escritor checo da contemporaneidade.
Os leitores acreditam até hoje que o pulo do sexto para o oitavo simboliza sua crítica à perfeição. Nem desconfiam se tratar de sua maior confissão, sua rendição ao imperfeito.
Flávio, parabéns pelo blog (e pela coragem de tê-lo). Pode ter certeza que fará muito bem (para você e para quem lê). Gostei muito!
ResponderExcluirJá está nos meus links.
Bjs, com carinho.