Eram sujos e se orgulhavam disso. Como pequenos burgueses, aquela era sua forma de repudiar os valores imediatistas do consumo desenfreado. Por isso não lavavam o rosto cotidianamente, tampouco escovavam os dentes após cada refeição. Seus cabelos eram mal lavados e cortados um pelo outro. Seus corpos exalavam o cheiro do humano quando despido dos hábitos civilizados. Meu Deus, como podiam deitar e rolar daquele jeito? Ela, maltrapilha, julgava-se descolada. Ele tinha por costume usar a mesma camiseta com bordas esgarçadas dias seguidos.
Um dia encontraram uma garrafa mágica de Johnny Walker, a esfregaram e beberam toda. E não é que um gênio apareceu e lhes concedeu dois pedidos? Um para cada. Ele desejou para si e para ela uma vida mais digna. Roupas novas, corte de cabelo no Soho Perdizes, tênis fashion, banho de espuma refrescante em ofurô genuinamente japonês, relógios descolados Chilli Beans, perfumes Boss. Ela, por sua vez, desejou que tudo voltasse ao normal e, se não fosse abuso, mais uma dose (dupla) do bom João Caminhante. Afinal, nos dias de hoje ser alternativo não é nada fácil e um trago sempre ajuda.
Escrevo para falar as vozes de mim. Dar-lhes caminho. Aqui elas circulam e os monstros descansam. Eles não me assustam mais.
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Meu amigo, parabens pelo seu texto, muito criativo e direto.
ResponderExcluirSaudades!
abraço!
Giovani Canan