sábado, 3 de dezembro de 2011

O Décimo Segundo.

O aniversário do tio Ataíde era o grande evento familiar. Afinal, era o primeiro dos Pereira que estava completando um centenário de vida. Filho de imigrantes portugueses, tio Ataíde não tinha papas nas línguas e já  era caduco  desde seus noventa e poucos anos.Tinha 5 filhos, 13 netos, 4 bisnetos e nascera, há pouco mais de 3 meses, o primeiro tataraneto, que recebera seu nome em homenagem. A festa fora preparada com todo carinho e pompa que merecia. Parentes do além Tejo confirmaram presença, como também vários tupiniquins de mesmo sangue. Dos seus outros onze irmão, apenas 5 ainda estavam vivos. Arlindo, seu irmão mais novo estava muito doente, mas seus filhos fizeram questão de comparecer. No salão, as mesas estavam decoradas com fotos da vida de Ataíde, desde sua infância em Itajubá, a participação como praça na Segunda Guerra mundial,  o seu casamento, de quando recebera o prêmio de melhor funcionário do exército, onde fizera carreira, como também imagens de sua participação no governo militar de 1968. O menu da festa era uma seleção de pratos da cozinha portuguesa e mineira. Havia iguarias preciosas, como doce de ovo. Aliás, comentava-se que a mesa de doces era uma afronta para os velhos diabéticos presentes na festa. Mais de 300 convidados ja estavam no salão quando se projetou o curta metragem que sua bisneta Ágata criara para demonstrar seu carinho ao vovô, como também justificar aos seus pais os 3000,00 reais mensais pagos no curso de cinema da Faap. Todos estavam muito emocionados. Arlindo, seu filho mais velho, ao microfone, era o responsável para homenageá-lo: Pai querido, tê-lo aqui é um prazer que não podemos descrever, o senhor é um exemplo para todos nós. E depois de algumas frases emocionantes, emocionado, passou a palavra para o homenageado. Tio Ataíde, um pouco alheio ao significado de tudo aquilo, mas mantendo a pose como lhe mandavam, pensou no que dizer. Momento especial, o patriarca de cem anos deixaria sua sabedoria para as mais de quatro gerações que ali se encontravam. Silêncio. Tio Ataíde não falava nada. Sua esposa, dez anos mais nova, sempre prestativa e carinhosa, tentou ajudá-lo: Conte para eles como é ter cem anos. Ataíde olha para a mulher com quem vivera mais de 70 anos e para a comoção de todos, fala entre a voz rouca e pouco consciente:  A melhor coisa de ser velho é que você dorme, come e caga. Nem sempre assim, nessa ordem.
Depois de alguns segundos de silêncio, alguém entoou o parabéns e o microfone foi desligado.
Tio Ataíde morreu com 102 anos. Nas outras duas comemorações que se seguiram, a família preferiu algo mais intimista. E sem depoimentos.

2 comentários:

  1. Pensamos que no Tio Ataíde poderiamos encontrar algo que buscamos e não encontramos (em nós, nos outros). A declaração dele em nada confortou os demais, porque tirou-lhes uma certeza. Talvez uma das poucas. Tem coisa pior?
    Foi o que senti do texto. Muito bom.
    Estou sempre por aqui e adoro.
    Obrigada pela visita e elogio que me fez hoje, fiquei muito feliz.
    Beijos.

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  2. Quisera eu pensar como o tio Ataíde na segunda feira: dormir, comer e cagar!!!

    Dan

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